YACHT CLUB

(Texto do evento CasaCor Minas 2009)

Flavio Carsalade

“O vapor da cachoeira não navega mais no mar
Anda a roda, toca o fuso, nós queremos navegar”
(cancioneiro popular)

Um navio no porto é sempre uma promessa de liberdade.

Ainda mais se o navio tem asas, butterfly, borboleta, tanto ao céu, tanto ao mar. Ainda mais se o navio tem ar, se é leve, se flutua a meio-caminho entre céu e lago, se se inunda de luz e a luz o faz alçar, aqui na terra quanto no céu. Ainda mais se o que o move é o espírito novo, l’esprit nouveau, que anuncia os novos tempos do homem, liberto pela modernidade, pelo triunfo de sua inteligência. Estamos em pleno mar, estamos em 1943 e sempre.

Um navio no cais é o portal por onde entram nossos sonhos de viagens, umbral do desgarrar. Um navio no porto, no entanto, é maior que qualquer viagem, pois é o lugar da infinita potência, onde todas as possibilidades coexistem, todas as direções se abrem, onde todas as escolhas são possíveis. Do salão do Iate Clube se abrem todas as direções, se acompanha o percurso do sol: é uma nau de caminhos abertos. O seu norte firme é o azimute das liberdades. No deck do Iate Clube se realiza o milagre do caminhar sobre as águas, corpo imerso em meio delas. Do deck do iate Clube, se vê cada um dos brilhos de cada porção de água, se vê o movimento luminoso da vida.

Pela rampa do Iate Clube, se ascende ao céu e á bordo, os dois ocupando um mesmo lugar. Quem está a bordo está no céu, solto no espaço. Do píer do Iate Clube, Belo Horizonte se abre para o universo. A Minas recatada e tímida, mas de tantos segredos ocultos, se revela para o mundo e a Belo Horizonte do verso moderno, “do novo sentido da palavra, agora poesia”, cidade que celebra a tradição pelo gosto de rompê-la, se mostra ao estrangeiro de igual para igual. Butterfly, esprit nouveau, deck, píer, Yacth, estamos no mundo (!) graças ao sonho de quem sabe sonhar, mas também sabe construir esses sonhos.

É o sonho de um povo que se quis moderno, orgulhoso de sua construção coletiva, o sonho de um prefeito sorridente, visionário e vidente, o sonho de artistas que viam um mundo além do que os olhos normalmente vêem. Sonho de um tal Oscar, que via curvas onde outros só viam retas e sabia arranjar os pesos de modo a torná-los leves; de um tal Roberto que enxergava mais cores do que as existentes nas paletas comuns e as enxergava também com cheiros e as arranjava em canteiros; de um tal Candido, que de tão cândido, conversava com os anjos e com as almas tanto de trabalhadores braçais presos à dura realidade quanto com o os espíritos das formas libertas. Todos sonhando em brasileiro, embriagados de nossas paisagens, das nossas espécies nativas, de nossa gente gostosa. E todos os sonhos ajuntados a bordo de um navio, a nos convidar ao passeio, a nos convidar à viagem.

Depois de tantos anos, o que prende o navio ao porto, se navegar é preciso?

Meu amigo, meu irmão, salvemos o poder da viagem, a natureza movente do Iate, temos que libertá-lo dos grilhões que o prendem à terra, derrubar muros que, desde sempre, são a antítese da liberdade, deixar que os caminhantes vejam suas formas e recebam seu convite de partir e bailar; temos que mostrar os arlequins de Portinari para que dancem, temos que retirar “O esporte” de Burle Marx dos porões onde se aprisiona, para que suas formas também bailem junto à luz do salão e às águas da lagoa.

Meu amigo, meu concidadão, deixemos que a lagoa novamente seja vista e, nela, a grande nau sempre pronta a partir, rompamos as barreiras visuais que nos impedem o vislumbre do transcendente.

Homens de boa-fé, políticos de toda ordem, gente com alma de artista, salvemos os espaços livres e libertadores, interrompamos a corrupção da matéria, resgatemos o bailar do espaço no entremeio da arquitetura que o enseja, plantemos novamente os canteiros das flores do sonho.

O Iate foi feito para partir. Nós queremos navegar!

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