As Cidades Cresceram e Transformaram

Richard Rogers e Philip Gumuchdjian - (Cidades para um pequeno planeta)

As cidades cresceram e transformaram-se em estruturas tão complexas e difíceis de administrar, que quase não nos lembramos que elas existiam em primeiro lugar, e acima de tudo, para satisfazer às necessidades humanas e sociais das comunidades.

De fato, geralmente as cidades não conseguem ser vistas sob esta ótica. Quando perguntadas sobre as cidades, provavelmente as pessoas irão falar de edifícios e carros , em vez de falar de ruas e praças. Se perguntadas sobre a vida nas cidades, falarão mais de distanciamento, isolamento, medo da violência ou congestionamento e poluição do que de comunidade, participação, animação, beleza e prazer. Provavelmente dirão que os conceitos “cidade” e “qualidade de vida” são incompatíveis. No mundo desenvolvido este conflito está levando os cidadãos a enclausurarem-se em territórios particulares protegidos, segregando ricos e pobres, e retirando o verdadeiro significado do conceito de cidadania...

O resultado desta tendência é o declínio da vitalidade de nossos espaços urbanos.

À medida que a vitalidade dos espaços públicos diminui, perdemos o hábito de participar da vida urbana da rua. O policiamento natural ou espontâneo das ruas, aquele produzido pela presença das pessoas, é substituído pela segurança oficial e a própria cidade torna-se menos hospitaleira e alienante. Logo, nossos espaços públicos passam a ser percebidos como realmente perigosos e o medo entra em cena.

Desaparece a cidadania – a noção da responsabilidade compartilhada por um ambiente – e a vida na cidade torna-se dividida, com os ricos situados em território protegido e os pobres fechados em guetos e favelas. As cidades foram originalmente construídas para celebrar o que temos em comum. Agora, são projetadas para manter-nos afastados dos outros.

A disseminação da crise global gerou uma constatação mundial de que nosso meio ambiente é um patrimônio frágil e limitado. Da mesma forma que o novo conhecimento técnico transformou a antiga vila agrária na sociedade industrial, também a tecnologia da informação, trazendo consigo um novo conhecimento ambiental, está forçando a criação de uma sociedade global e que vive quase integralmente em cidades.

A forma da cidade pode estimular uma cultura urbana que gere cidadania e este importante papel precisa ser reconhecido. A meu ver, a cultura urbana é fundamentalmente participativa e se manifesta em atividades que ocorrem apenas nos ambientes densos e interativos das cidades. Estas atividades variam das mais comuns às intelectuais, das cotidianas às excepcionais, das divertidas às profundas, das acaloradas discussões nos cafés à completa atenção durante um concerto. Tais atividades definem o caráter de uma cidade específica, dão identidade à sociedade urbana, capturam a essência de seu povo e unem a comunidade.
...espaços públicos inclusivos e vicejantes acalentam a tolerância e o pensamento radical.

A liberdade do espaço público deve ser defendida tão fortemente como a liberdade de expressão...

A cidade sustentável é uma cidade de muitas facetas:
- Uma cidade justa, onde justiça, alimentação, abrigo, educação, saúde e esperança sejam distribuídos de forma justa e onde todas as pessoas participem da administração;
- Uma cidade bonita, onde arte, arquitetura e paisagem incendeiem a imaginação e toquem o espírito;
- Uma cidade criativa, onde uma visão aberta e a experimentação mobilizem todo o seu potencial de recursos humanos e permitam uma rápida resposta à mudança;
- Uma cidade ecológica, que minimize seu impacto no meio ambiente, onde a paisagem e a área construída estejam equilibradas e onde os edifícios e a infra-estrutura sejam seguros e eficientes em termos de recursos;
- Uma cidade fácil, onde o âmbito público encoraje a comunidade à mobilidade, e onde a informação seja trocada tanto pessoalmente quanto eletronicamente;
- Uma cidade policêntrica e compacta, que proteja a área rural, concentre e integre comunidades nos bairros e maximize a proximidade;
- Uma cidade diversificada, onde uma ampla gama de atividades diferentes gerem vitalidade, inspiração e acalentem uma vida pública essencial.

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