João do Rio, 1908

Postado por Jorge Espeschit em 28/01/2010

“Os jardins para as grandes cidades são como escapadas da civilização. Entre duas árvores o homem é inteiramente diverso do homem entre duas vitrines. À beira de um lago artificial, na sombra de velhas árvores, o cidadão sente o estremecimento atávico, o acordar dos instintos. Onde houver muitas árvores , o ar livre, o céu azul visto através do rendado das folhas verdes, podeis ter a certeza de que aí as criaturas mais armafanhadas pela neurose urbana sentem o desabrocho rubro do sexto sentido. É como a sensualidade, é tal a luz e tal qual o perfume, impalpável e invisível, a sensualidade parece pender dos ramos no cheiro forte das folhas, na luz de que se abebera a fronte. As árvores guardam sempre armadilhas no tronco de uma tão insidiosa cumplicidade de amor!...

... É provável, porém, que nunca tivesses reparado nas pessoas que vão aos jardins. Eu vou e reparo.
Oh! As pessoas que vão aos jardins! Nunca se entra nesses sítios como no teatro, como em qualquer rua, como por uma porta qualquer. Os que transpõem grandes portões de ferro aproximam-se, sentem a necessidade, ou são forçados a aproximarem-se da natureza. Vede as crianças. Na rua, em casa elas estão de outro modo. Logo que chegam a esses lugares, perdem o respeito como se retomassem o sentimento de liberdade primitivo. É rara a criança da cidade que vendo uma aléia sombreada de árvores, não sinta a necessidade, a obrigação de se expandir em gestos, de se penetrar daquele verde, daquela atmosfera de quieta e morna e doce sensualidade, e não deite logo à correr.

Por isso os jardins, nas grandes cidades, são escapadas de civilização e eu não entro num jardim, sem me sentir dominado pela Natureza brutal – de que com tanto custo, quando não está nos jardins, parece liberto o Homem da Cidade...”

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